domingo, 20 de fevereiro de 2011

Crônica das Letras

As palavras, preguiçosas e sonolentas, arrastam-se pela folha procurando um alento em algum parágrafo sem sentido. Os sentimentos militando com a razão gritam ordens dissonantes aos pontos e vírgulas para se organizarem. A exclamação por falta de interrogações( que parece-me que estão em greve, mas em vez de afirmar só questionam) contorce-se quase formando um "s".
E nestas dificuldades, pouco notadas pelo escritor, o texto vai se formando. Estes esforçados trabalhadores que só são valorizados em grupos e só aplaudidos quando escritos por um grande autor, olham-nos boquiabertos o mal uso deles mesmos.
Ah, se por um astuto milagre eles vida ganhassem, qual o conteúdo tão fatídico ou deslumbrante eles por razão de si formariam? Talvez um canto esquecido, de suas naturezas ancestrais, clamando por uma liberdade roubada pela necessidade de comunicação humana. Ou um ode aos grandes, que guiados por um instinto desconhecido, souberam dar forma a beleza mais pura da escrita.
Pode-se pensar que não formariam nada, entrariam em greve como símbolo aos anos da ditadura da produção literária. Duros líderes, Carlos Drummond e Vinicíus de Morais(digo estes pois pela última votação do partido esquerdista do alfabeto, que por alguma razão é liderado pelas letras "v" ,"e", "r", "m", "l", h" e "o", elegeram os mais odiados intectuais) que com elas brincavam de tal forma a virar belíssima arte aos olhos humanos.
Queria revelar mais alguns segredos, como quando elas por brincadeira ou por razão sólida que por nós é desconhecida regeram as grandes mudanças mundias e submeteram líderes fadando-os à queda mais profana.Mas como sou delas dependentes, desse modo por elas censurado, e não sei se por medo ou por respeito, vou terminando aqui esta breve crônica.
Antes deixo-os a pensar... Quem aguentaria a revolução das letras? Desta forma peço, como o pior dos escritores, que as amem, as desejem, as alogiem, as acariciem como a amante mais querida e por obséquio não as usem de uma maneira qualquer.

P.S: O "W" e o "Y, com um sotaque indestiguível, reclamaram que não foram usados, deixo a eles os mais cordiais cumprimentos. Amo-os do mesmo jeito.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Emersum

Deixe-me escrever sem pensamentos profundos, as maiores verdades são ditas ao acaso, naqueles raros momentos em que razão e emoção são uma. Vários pensamentos surgem em minha mente. A beleza de um filme que se torna uma idéia viva, uma alegria tão plena, mas que dura apenas algumas horas; o vislumbre das respostas das tantas incertezas.
Por anos fundei muitas atitudes numa afirmação, a única afirmação do tipo, aquela frase adolescente que deveria se apagar com o tempo, mas que para mim é chama viva e constante. Por tantas vezes tentei esconde-la, mas como fugir de seu calor, ou não vislumbrar sua luz em meia a escuridão da solidão?
Achei abrigo nos poemas, nos contos, nos textos, no romantismo de Alencar, na racionalidade de Dostoyevisk, na profundidade de Dante, nos pensamentos de sócrates e na sabedoria de Salomão. Todos estes fiéis companheiros das madrugadas, dos dias tristes, que juntos formam a escrita que leem.
Amei e amo uma pessoa, diga amor na mais profunda forma, aquelas que duram uma vida, que persistem as opiniões, as tristezas e até mesmo a própria vontade de não amar. Tentei paixões vazias, mas a cada olhar, a cada sorriso, a cada beijo, queria o dela. E esta ilusão criada para lubridiar um amor, dissolve-se na primeira tempestade que os apaixonados passam como teste de seu querer. E neste amor querido e odiado me firmei, vislumbro futuro, mais preenchido de sonhos que realidade; cuido dela a distância, nas frases bem pensadas que tento, pelo grande desejo de sua felicidade, plantar em sua mente. Oro vivamente clamando a Cristo uma resposta a toda essa espera, e pelas lágrimas tantas vezes vertidas, como disse um poeta, já criei as águas que rodeiam o castelo que para ela criei.
O amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera. Quantas vezes já li este texto, sorvendo cada palavra como gotas de vida para os momentos difíceis. Quando ela disse amar outro, quando outro a fez sofrer, quando ela se sentia triste, desanimada e as amarras de minha decisão me lacravam as palavras.
A verdade que conheço é este amor, que se alimenta pela fé, pelos sonhos, por uma certeza divina de que não depende de mim. E por que não firmar minha esperanças? Por que não ter um amor idealizado nos livros ou belamente representados nos filmes? Quem afirmou que a vida não pode ser mais bela do que eles?
Sonhe, tente, arrisque, lute, ria, chore, ore e tenha fé. Não há o impossível, não há a distância, não há o tempo.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Textos de Aeroporto

Lembraram-me que tenho um Blog...





"As horas passam nesta viagem tão cheia de esperanças e expectativas, uma música de amor soa aos meus ouvidos, e sua imagem me consome e me delicia. Seus cabelos castanhos criando sombras em sua tez acetinada, seus olhos límpidos tão puros que apenas ao contemplá-los qualquer paixão voluptuosa rende-se em virtuoso amor. Seu sorriso exuberante alumiando a mais profunda escuridão que me assombra.
Como não amá-la? Em frente de inefável perfeição o mais covarde cavaleiro rugiria de bravura com um leão; sujeitaria as ilusões do mundo, colocava aos seus pés o mais terrível medo; viajaria milhas, transporia montanhas, lutaria contra si."


"Ergo-me acima das nuvens
Queimo minhas asas ao som de tua voz
E caio em amores perpétuos
Neste sentimento divino
Numa queda até ti"

"Por que já provaste dos lábios desta mulher e não sabes se é dor ou delícia. São lavas embebidas em mel, queimam-te e te corrompem. Seus dentes de perola te devoram colocando bálsamo nas feridas.
Este gozo tão incisivo te consome, e lentamente leva-te a morte.
Doce é a morte que leva ao amor.
"Baseado em 'Lucíola' de José de Alencar"


"Dentre as mais belas
És tu
Que pelo tempo e espaço
Se torna infinita

Perene contempla
A imensidão de um amor
Vislumbrando doravante
As minúcias de quem por ti espera

Quem és, oh Musa?
Que teus olhos
Me levam a esse amor divino"

domingo, 25 de abril de 2010

O Chafariz



Era uma tarde quente e úmida, a garoa periódica acabara de terminar. Podia-se sentir o perfume das hortênsias e jasmins pela janela do segundo andar. Sentado em uma cadeira havia um jovem de pele morena, cabelo liso molhado sobre a testa, seus olhos eram de um castanho sólido. Ele olhava para o horizonte com uma expressão séria e com olhos sonhadores. Sua mão repousava sobre um pequeno livreto, de couro preto, onde havia uma inscrição que parecia de próprio punho, dizia:

“Christine,

Preciso dizer-te algo, e isto supera a mim. Imaginei mil palavras, busquei mil versos de grandes poetas pra retratar o imensurável. O sentimento que tenho por ti não consigo expressar, buscaria as estrelas para colocar como enfeites em teus cabelos, subirias ao céu e pegaria o arco-íris para dar-te como coroa. Es a bela que a habita em meu peito. Es a princesa que alegra meus sonhos. Es a”

O jovem, que se chama August, como que acordando de um sonho, olhou para o livreto ponderou um pouco, até que por fim, jogou sobre uma mesa próxima.

-Que covardia! Seja homem! Olhe-a nos olhos e fale: Eu gosto de você! – disse em voz alta, socando a mesinha.

Olhou novamente para a janela, soltou um pequeno suspiro e levantou-se.

August tinha 21 anos, as pessoas normalmente o descreviam como alguém quieto, sério e um pouco sonhador. Neste momento estava apaixonado.

Foi um desses amores pouco comuns, ele a viu em uma de meio de ano, ficou fascinado, cada mínimo detalhe que percebia nela era algo incrível e apaixonante, o tom claro acastanhado de seus olhos, e de seus cabelos, seu jeito quieto e seguro de ser, seu sorriso e sua inteligência. Parece que sua empreitada nessa aventura cruel e fantástica estava dando bons resultados, pelo menos era isso que ele acha, mesmo em suas muitas incertezas.

August se levantou pesaroso, pegou uma blusa, calçou suas sandálias e desceu os degraus da escada lentamente. Sua mente estava uma confusão, a necessidade de expressar os sentimentos estava em um conflito com a possibilidade de rejeição. Desde a noite passada que sonhara com a temível negação, sua esperança estava vacilando.

No sonho ele estava no prédio de Christine mesmo não o conhecendo, era uma arquitetura acinzentada de apartamentos em blocos, ele aparecia com um ramalhete de flores, e com um sorriso, se declarando, parecia um momento perfeito, a cena se escureceu, ouve uma negação sem frases, o ramalhete caiu no chão, e neste momento August acordou.Talvez pareça um sonho bobo, mas para um apaixonado, mesmo isto é motivo para um desespero.

Ele abriu a porta e saiu para o jardim, respirou profundamente, absorvendo cada aroma do lugar e começou a andar sem rumo certo. A rua era ladeada de árvores, crianças brincavam de pular corda nas calçadas, homens e mulheres passavam apressadamente se exercitando. August andava de cabeça baixa, mãos nos bolsos, se concentrando em algum ponto fixo entre o chão e uma visão clara para não esbarrar em alguém.

Passou por algumas ruas até chegar numa pequena praça. Ela era rodeada por um gramado verde exuberante, e por pequenos bancos de pedra de uma cor branca, e no centro um pequeno chafariz que já não funcionava. August parou na frente do chafariz e começou a ler as inscrições feitas em suas bordas, frases de amor de alguns casais. “Uma fonte do amor”, pensou. Com um sorriso sarcástico aparecendo no rosto.

Ele não tinha nada a perder, pegou uma pequena pedra irregular no chão e escreveu na borda: “Se há desejos que possam se realizar, que eu aprenda como amar e conquistar”. Leu novamente a inscrição e se virou para ir embora.

-Bela frase, rapaz! – disse um senhor.

August olhou assustado, não havia ninguém ali um segundo atrás. De onde poderia ter surgido aquele velho?

O senhor tinha um aspecto distinto, cabelos brancos, um sorriso bondoso e profundo olhos azuis, usava um caça caqui cinza, uma camisa branca de botões e cintos e sapatos pretos brilhantes, como se tivesse recém engraxado.

- Obrigado. – disse August surpreendido.

- Sabia que eu conheci a minha bela senhora, exatamente no lugar onde você está? Escrevi a minha declaração ai e mostrei para ela. Disse o velho.

-O senhor teve uma boa idéia. No seu tempo talvez os romances fossem mais simples- disse August.

-Não há mudanças no amor, meu jovem, nós é que a complicamos. Hoje tudo é tão rápido, mas o romance não se influenciou com essa correria. Não há maior segredo para o sucesso no amor que a paciência. –disse o velho.

-Me perdoe, mas para o senhor talvez seja fácil falar, conquistou a sua. Mas hoje é mais complicado, mais difícil, a maioria das vezes o inerte não ganha.

-Você não me entendeu, não disse inerte, e sim paciente. Posso arriscar um palpite, você está apaixonado e sem esperança, acertei? –disse o velho sorrindo calmamente.

-Talvez. Respondeu August receoso.

-Acho que foi um sim, o que lhe tirou a esperança? Disse o velho.

Como água em ebulição, todos os medos e problemas borbulharam na mente de August, quase incontrolável. “Que mal faria falar para o velho?” pensou. “ Se há alguém que possa ter a resposta é ele”

-É difícil! Ela não fala como se sente, se protege demais, não me procura, não sei o que pensar. Às vezes acho que ela está sentindo algo, mas depois ela vem com uma conversa de amizade e umas frases soltas que penetram na minha mente e tiram as minhas forças. Não sei o que fazer, não posso me declarar sem ter a certeza que ela gosta, mas ela não demonstra.

-Entendo. Você precisa entender o que é amar. Disse o velho.

- Eu sei o que é amar. Estou sentindo isso.

-Não meu jovem, você não sabe. Você está apaixonado, quando souber o que é o verdadeiro amor. Nunca mais perdera as esperanças. –disse o velho.

-Então o que é amor? –perguntou August.

-Não vamos nos prender em definições de amor, mas o que o amor transmite. O amor é eterno, quem ama nunca busca a si mesmo, mas se oferece para suportar, esperar e sofrer. O que você busca na menina que você diz que ama? Por que você a quer na sua vida?-disse o velho.

-Porque me deixa feliz ela ao meu lado, porque ela se tornou parte importante da minha vida.- disse August.

-Encontramos então o nosso primeiro erro. Você a quer por sua felicidade. Mas o amor não se comporta assim, ele procura realizar a felicidade do outro. Você deve saber que o objetivo principal de seu relacionamento é fazer sua parceira feliz. –disse o velho.

- Difícil de entender!

- Não disse que seria fácil, meu jovem. A maioria das pessoas entra em relacionamentos apenas pelos sentimentos e tentam satisfazer as suas necessidades. Mas é o oposto, cada parceiro deve ter em mente as necessidades do outro. Vamos a outra pergunta: O que você conhece sobre ela? Quais os desejos? Gostos?

-Eu conheço o suficiente. Mas não posso dizer com certeza todos eles. Disse August.

-Você parecia apressado e angustiado para ela gostasse de você, mas não a conhece. Você está gostando de uma definição sua dela. Pense, como vai se relacionar com um desconhecido. Seja paciente meu jovem, há tempo para tudo. Não tenha pressa, aproveite esse momento de conhecê-la, sem pressões de relacionamento. Talvez só a amizade agora pareça ruim, mas na verdade deve ser uma das fases mais prazerosas. É nesse momento que o verdadeiro gostar surge e se fundamenta. Acredite em mim, conhecer o parceiro numa amizade te livra de muitos problemas futuros.

-Não tinha pensado nisso. Talvez eu esteja me apressando. Mas queria tanto dizer que estou apaixonado por ela. E saber que ela gosta de mim.

-Jovem, o momento virá, e será especial, mas não se apresse. Antes disso você tem que aprender a ser um homem digno dela, capaz de fazê-la feliz. Infelizmente, isso não posso ensiná-lo. Você irá aprender. Mas tenho uns conselhos. Seja sempre paciente, bondoso, e amável; seja sempre justo e firme em fazer o bem e o certo, não seja ciumento, nem orgulhoso, nem vaidoso. Não guarde mágoas, nem em suas brigas. As lágrimas delas são mais valiosas que pérolas. E principalmente, nunca desista de fazê-la feliz, não importa as circunstâncias ou dificuldades.

-Eu entendo! Muito obrigado senhor. Realmente não sabia nem de perto o que era amar.

- Leve essas palavras com você, filho. Levei muito tempo para aprendê-las.

-Certamente não me esquecerei. disse August

August virou para o chafariz, leu de novo a inscrição que escrevera. Deu um pequeno sorriso.

-Minha hora chegou. Adeus August.- Disse o velho.

August se virou, mas o velho havia desaparecido. Ele olhou para o banco, sorriu e pensou: “Talvez essa fonte realmente funcione”. Tocou no banco onde o senhor estava e disse:

-Adeus, velho.

Com um sorriso August voltou no caminho para casa. Tudo parecia que mudara, não olhava para o chão, mas reparava em cada beleza em seu caminho. Ele ainda não compreendia totalmente o que era amar, ou se apaixonar, mas parecia agora esta no caminho certo.

Subiu as escadas de sua casa, pegou o pequeno livreto. Arrancou a página onde havia a confissão e escreveu:

“Christine,

Se um dia você ler isso, saiba que até então não era digno de você, e provavelmente não sou. Mais saiba que quero aprender a cada dia sobre você, quero saber cada desejo e cada sonho, por mais bobo que seja. Quero fazer cada um deles se realizar, não importa quanto eu tenha que lutar. Você é muito especial pra mim, mas do que possa imaginar. Estou aprendendo a cada dia ser uma pessoa melhor, lutando mesmo contra mim.

Eu poderia ter escrito as coisas mais românticas possíveis, mas são palavras vãs. Prefiro abrir o meu coração. E é isso que sinto. Que não sei ao certo como vai ser conosco, e isso realmente me amedronta, mas ter você ao meu lado seria uma das mais intensas felicidades. E minha felicidade seria te fazer feliz. Não sei os meios, não sei como, não sei onde, nem os porquês. Mas Deus quis que eu me apaixonasse por você. E espero ser o melhor pra você. E sei que Deus ouve as minhas orações diárias, e se for a vontade Dele, você sentirá o mesmo por mim.

Tenho muitas coisas pra dizer. Mas as quero dizer pessoalmente e no momento certo.

Estarei com você sempre que precisar.

August ”

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Reflexo


O lago era gélido e negro. Haveria alguma vida naquele lugar? Minha dor pulsava. “É culpa minha, os matei! Lara! Paulo!”. Deixei-me cair à beira das águas, engolia uma saliva grossa tentando manter meu terror preso no peito. Só queria que tudo terminasse, que não existisse mais fôlego nos meus pulmões.
Tentei levantar, mas era em vão, as minhas forças se esvaíram sugadas pelo medo que me tomava. Fiquei de bruços, arrastando-me lentamente para perto do lago. “Esse lago será meu fim! Irei para as suas profundezas! Minha dor finalmente acabará!”. Em toda minha vida andei olhando para cima, no fim me arrasto na lama.
Não foi a morte que me esperava na água, era um mostro. Um reflexo negro de uma pessoa sorria para mim.
-Achas que tua dor vai terminar tão fácil? – disse-me o monstro por entre um sorriso macabro.
Não respondi, estava paralisado.
-RESPONDA! VERME!
- Que... Quem é você?- disse em pânico.
-Ha Ha ha! Quem sou eu? Você irá descobrir!- sua risada era grotesca, como gritos de horror.
-O que quer comigo? DEIXE-ME EM PAZ! Só quero morrer.
-CALADO! VERME! Você acha que vai se libertar da punição do seu pecado tão fácil? Não. Sua morte não vai ser rápida. Vou matar cada prazer e lembrança boa de sua vida. Só sobrará o terror.
-Você não pode tirar nada de mim, já perdi tudo! Só há dor!
-CALADO! Você ainda não sabe o que é dor!
A água se agitou formando círculos concêntricos, uma imagem foi ficando nítida. Era o casamento do meu melhor amigo Paulo com Lara. Eu estava como um dos padrinhos, vendo ela andar em direção onde estávamos. A música entoando. Como estava linda, só desejava que ela fosse minha. Não de Paulo, minha.
-É o dia mais feliz da minha vida. - Disse Paulo.
-Essa felicidade vai durar toda a sua vida!- Lhe disse sorrindo.
A visão parou no meu sorriso, e Lara vindo em nossa direção.
-VERME! Desejou a mulher do seu melhor amigo! O enganou no altar! Há há há! Um homem tão certo enganou a quem o amava! Parabéns! Há há há! – disse o monstro, entre risadas.
-Me deixe! Eu não quero ver nada.
Tentei me afastar do lago, não pude.Era como se uma força me prendesse.
-Você é meu agora. Não tente lutar. Ainda não viu a agonia e a dor.
A água se agitou novamente. Mostrava o aeroporto, no dia em que Paulo viajou para o Japão por três meses.
-Cuide dela por mim! Eu a amo muito – disse-me Paulo, sorrindo para a Lara que estava em seus braços.
-Guardarei com a minha própria vida, meu amigo. Não há lugar mais seguro que ao meu lado. Sorte no Japão.- disse apertando a sua mão.
“Três meses a sós com a Lara! Ela será minha, com certeza”. Lembro-me de ter pensado naquela hora.
A visão parou.
-Estou animado! Tanta maldade num homem! Há há há! Mentiras e mais mentiras! Há há há! Aproveitou da amizade de Paulo para conquistar sua amada esposa!- disse-me o monstro.
- Eu sei de minha culpa. Sei que não há perdão. Vá embora!
-NÃO! O farei lembrar-se de cada pecado! Da dor que causou!
A água se movimentou. Mostrava Lara e eu no carro, dois meses depois.
-Vai ser bom pra você ficar um pouco na casa do lago. Não se preocupe, de lá ligamos para o Paulo. Você já deixou um recado em casa. –disse para Lara.
-Não sei. Queria esperar por ele em casa.
-Não se preocupe. Só descanse.
A imagem no lago tremulou, mostrando o interior da casa. A lareira estava acesa. Lara estava deitada no sofá de olhos cerrados.
-Que tal um vinho? Vamos brindar essa linda vista e o calor da lareira.- disse trazendo a garrafa e dois copos.
-Não posso beber! Fico atordoada rápido!
-Vamos! Não fique assim!
-Tá bom.
A imagem foi acelerando. Uma, duas, três garrafas de vinho. Via nós sorrindo e se abraçando, num estupor alcoólico.
-Sempre amei você, Lara.
-Deixe de brincadeiras!-ela me disse sorrindo.
A tomei pelo braço pra que ficasse mais perto de mim.
-É verdade. Sempre te amei.
-Não, pare com isso. Eu amo o Paulo.
-Seja minha, só dessa vez! Ele não vai saber.
-Não. Está bom por hoje. Vou para o quarto.
A ira me tomou pela rejeição.
-Você será minha!
O que havia de humano em mim naquela hora sumiu. Rasguei suas roupas uma por uma. Ela gritava em desespero.Eu a pegava pelo pescoço.
-Você será minha! MINHA!
Seus unhas cravavam na minha pele, não sentia nada. Apenas segurava seu pescoço mais forte tentando fazê-la calar. E com o tempo não ouvi mais nada. Foi quando Paulo abriu a porta.
-Surpresa. Cheguei...
Seu rosto de pavor me atordou.

-Está bom. Não quero ver mais nada! Já chega, por favor! Chega!- disse ao monstro.
-CALADO! E veja a dor que você causou!
A imagem continuou. Paulo se jogou com fúria em cima de mim. Lara estava morta, semi-nua nos meus braços. Nós brigamos, empurrando um ao outro. Ele era mais forte, me jogou perto da lareira e foi em direção a Lara. Cego de raiva peguei o atiçador e o golpeei na cabeça.
O sangue corava o tapete, Paulo e Lara, um ao lado do outro. Mortos.

-JÁ CHEGA! POR FAVOR! Chega!- disse em lágrimas.
-Você cobiçou, enganou e matou!- disse me o monstro.
-Por favor, eu imploro! Me deixe morrer! Por favor!
-Você me perguntou quem eu era, lembra? Eu sou você. Aquele quem você escondeu atrás de sorrisos. Não vê a minha mão manchada a sangue? Há há há! Eu sempre fui você!
-Não! NÃO!
Em meio as lágrimas e o pavor, o monstro me agarrou, puxando-me lentamente para as profundezas do lago. Não senti a dor do último fôlego. Já estava morto.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Sim

“Sim”. Às vezes pequenas palavras são o limiar que precede grandes acontecimentos. Como encontrar a mulher que pode mudar nossas vidas, dar alegrias e sentimentos tão vivos que até então nos eram desconhecidos.
“Sim”. Foi a resposta que dei ao convite de sair naquela noite. Clube de salsa, o lugar mais improvável para me encontrar, meu conhecimento de dança era limitado a dois pra cá dois pra lá de uma valsa.
Há no homem uma sensação parecida com um sexto sentido, quando algo vai acontecer nos sentimos diferentes, como uma força nos puxasse a um destino impossível de escapar, e temos total conhecimento dessa força. Às vezes é um nervosismo repentino ou a preocupação com algo que nos é desconhecido. Assim que me senti ao entrar naquele clube, sabia que o meu destino me puxava pra lá.
O ar era um pouco pesado, aquela mistura de perfumes e suor dos que dançavam. Pessoas rodavam na minha frente em movimentos uniformes e rápidos. Aquilo era um pesadelo para um “pé de chumbo” como eu. Fui seguindo meus amigos até uma mesa onde umas mulheres estavam presentes. Cumprimentei todas sem prestar atenção em suas aparências. Aquele clima febril me atordoava.
Entre aqueles vultos em movimento percebi uma silhueta, uma mulher em um vestido preto andava em direção a mesa, sentado como estava só percebi as curvas belas e uniformes, tão perfeita quanto a personificação da própria Vênus de Milo. Quando se aproximava pude notar sua tez morena, seus cabelos em cachos perfeitos como uma onda derramando em seus ombros. Fiquei sem ar, poucas são as mulheres tão deslumbrantes que retiram nossa vida por apenas um segundo, para enfim renascemos apenas para a sua beleza. Morri e renasci apenas para ela.
-Camille! Só faltava você.
Alguém disse a mesa.
-Desculpem a demora. Tive um pequeno contratempo. Mas sim, vim para dançar, vamos?
Camille! Camille!Camille! Repeti inúmeras vezes na minha mente, como se quisesse manter aquele nome escrito em algum lugar. Não, queria tatuá-lo no coração. O que esta mulher tinha para arrebatar alguém dessa forma? Inexplicável.
Fiquei tão compenetrado em olhá-la que um dos meus amigos notou.
-O Augusto é um ótimo dançarino. Vai com ela.
Ela olhou pra mim e sorriu. Quão fascinante é o sol quando rompe a escuridão da noite. O sol não poderia se comparar ao seu sorriso.
-É, hum. Mas... -Disse completamente atrapalhado, já levantando.
Ela sorriu de novo e pegou minha mão. Quente, a mão dela era como fogo na minha. Que foi consumindo meu braço e me tomou por completo. A partir deste ponto já não era mais eu, esqueci tudo que estava ao redor, só conseguia focar em seus olhos.
Não me lembro da música, apenas sentia o seu corpo envolto dos meus braços, o seu perfume.
Em todo o tempo que dançamos não houve palavras, nossos olhos se encontravam, um fogo crispava nos meus, os delas para mim continuavam incompreensíveis. Nossos corpos se moviam uniformes, conseguia sentir o seu coração, ver o suor flutuar em direção ao seu busto, tudo aquilo era como uma droga, meu ópio. Nublava inteiramente meus sentidos.
Dançamos como pagãos. Éramos a mesma carne, o mesmo sopro de desejos ritmados. Sentia que minha alma ia se extinguindo tomada por um fogo que me consumia. A beijei. Seus lábios a início surpresos logo se entregaram submissos, eram como lavas embebidas em mel. Meus braços a envolveram firmes, não sabia se nos movimentávamos, talvez o mundo girasse ao nosso redor. Poderia estar no meio de chamas, meus sentidos eram todas dela.
Naquele único beijo que dei, pude sentir e doar toda a paixão e lascívia que meu peito ignóbil poderia propiciar. Ela era a minha Lucíola. O meu símbolo infame e puro de amar. Todo o meu pecado e devoção. Para um ser em completa sinestesia o tempo é inerte. Um segundo de completa paixão perdura e toma toda uma vida.
Eu permaneceria ali, naquele gozo tão incisivo que não sabia se era dor ou delícia, mas logo ela se apartou de mim. Olhou-me tristemente nos olhos. Como se uma lembrança a atormentasse. Senti logo o fel que precipita depois de um incólume prazer.
-Você é muito sério. - Ela me disse esboçando um sorriso.
-Não consigo pensar direito.
-Por quê?
-Você me deslumbra.
Ela sorriu tristemente.
- Não sou alguém confiável pra se apaixonarem.
-É tarde demais pra mim então.
- Você não me conhece, nunca trocamos palavras, foi apenas um beijo. Você não pode já ter se apaixonado. Esqueça Augusto!- Disse soltando dos meus braços.
Não poderia deixá-la ir, não poderia perdê-la. A tomei pelo pulso puxando-a para mim.
-Por que não? Eu nunca senti isso por ninguém. O que importa se nos conhecemos faz 1 hora ou 10 anos. Deixe-me pelo menos tentar.
-Augusto, esqueça. Eu só vou magoar você. Não posso me relacionar com ninguém. No fim jogarei seu sentimento na lama. Mas obrigado. Senti-me especial. Vou lembrar-me de você.
Soltou a minha mão e desapareceu entre as pessoas. Tentei procurá-la, mas tudo foi em vão. Voltei à mesa em agonia. Transtornado.
-Viu a Camille? Perguntei aos que estavam na mesa.
- Ela foi pra casa, não pode ficar muito cansada. Ah! Pediu pra te entregar isso.
Era um guardanapo com umas palavras escritas: “ Lembrarei de você o tempo que me restar. Obrigado por me fazer feliz por essa noite. “
Os dias passaram lentamente. Arrastavam-se sem sentido. Camille passou por minha vida com um sonho diáfano. A dor era insuportável. Amaldiçoei o meu “sim”, sei que não sentiria amor como aquele nunca em minha vida, mas talvez pudesse ter vivido sem ele.
Mais tarde descobri que alguns dias depois desta noite, ela havia morrido. Algum raro problema no coração. Nunca mais me senti assim. Amei uma mulher com todas as minhas forças por uma noite. Mas a lembrança continua tão viva que quase posso senti-la em meus braços.
Flávia, minha eterna relíquia escondida em meu peito.

Fleurs de la Rivière

Para aqueles que vivem na escuridão, a beleza nada importa. Vivemos de palavras, nossos corações balançam com um perfume, perfume de mulher.
Quando perdi a luz dos olhos, meu mundo desabou. Afundei-me em minhas próprias sofreguidões, meu coração enxergava menos que meus olhos. Minha rotina se limitava ao mesmo café de sempre, na rua “fleurs de la rivière”, e o restaurante na esquina dessa.
Todas as manhãs meu café preto e puro me saudava, aquele aroma penetrante que me fazia esquecer os que estavam ao meu redor. Foi numa manhã que senti seu perfume a primeira vez, não era forte, mas chamativo e pulsante, como se penetrasse a minha alma chamando-me para fora do meu poço de escuridão, seu perfume.
Quando não temos algum sentido, ou outros se afloram, sabia que a pessoa que tinha aquele tão inebriante perfume havia sentado na minha frente. Há oportunidades que nunca voltarão em nossas vidas, podemos perder futuros amigos por um sorriso, e amores por palavras simples como “olá”. Não tinha nada a perder.
- Amor e solidão.
- Como? Ela perguntou.
Que voz doce e arrebatadora. As pessoas têm seu perfume próprio, diz quem são, mostram suas personalidades. Sabe o que o dela me passava? A mulher mais linda e perfeita que meus olhos não viram, mas meu coração, meu olfato, meu tato, minha audição não poderão esquecer.
-Seu perfume. Disse me levantando indo em direção a sua voz.
- Não entendo.
- Posso te acompanhar?
- Hum... Pode sim.
Ela parecia não ter percebido minha invalidez até que esbarrei na mesa, meio envergonhada ela pegou a minha mão, nunca na vida sentir tanto prazer em tocar uma mão. Como um choque percorreu cada célula de meu corpo.
- Cada ser tem uma essência, um perfume. E cada perfume feito pelos humanos recebe um novo toque no corpo. Essa mistura entre o natural e produzido possui um significado, e o seu é este. -lhe disse me sentando.
- Você não pode rotular uma pessoa apenas pelo seu perfume. Você tem que a conhecer, saber o que há na sua mente e coração.
-O perfume é a primeira impressão, o que você quer passar para a pessoa. Eu errei com você?
- Todas as pessoas sentem amor e solidão. E um perfume causa uma impressão nas pessoas, então são suas interpretações. Talvez seja você que precise de um amor e sinta solidão. – Ela me disse contrariada.

-Você não me respondeu ainda. (eu disse sorrindo). Eu errei?
-Não.
Não sei se neste momento ela se envergonhou ou sorriu, mas por alguns minutos só podia ouvir o ruído da rua.
-Eu não posso ver, então criei novos olhos. Vejo as pessoas por seus perfumes.
-O que mais viu em mim?
-Beleza, não física, na alma.
Outro momento de silêncio.
-Sempre atraí as mulheres com essas palavras, senhor?
-Me chame August.
-Sempre atraí as mulheres com essas palavras, August?
-Se eu lhe dissesse que é a primeira vez que me sinto tão intrigado e ligado a uma pessoa. Você acreditaria?
-Talvez.
- Qual é o seu nome?
-Tenho que ir, August.
-Não vai me dizer seu nome?
-Camille.
-Vou poder encontrá-la de novo?
-É apenas o início, sempre nos veremos, aqui, na rua ”fleurs de la rivière”. Não vou me esquecer de você, August.
-Não me esquecerei do seu perfume,Camille.
Acho que ela já havia ido. Tentei imaginar meu futuro, e quando iria vê-la. Era apenas o início. Seu perfume continuava guardado no meu peito, na minha mente. O amor sempre é incerto.